sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O CORPO NA VELHICE

O corpo para a psicanálise é um corpo simbólico, permeado de cortes, recortes, buracos, recortado pela fantasia. Esse corpo é atravessado pela linguagem, o que nos torna possível a construção de redes de significados. Nosso corpo biológico é capturado desde o início numa rede de imagens e palavras, apresentadas primeiro pela mãe, depois pelos familiares e pelo social. É isso que vai moldando o desenvolvimento do corpo biológico, transformando-nos em seres humanos, com modo de ser singular.
O ser humano, diferentemente dos animais, é um deficiente instintivo. A localização do sujeito está sempre em volta do Outro, reduzindo o campo instintivo aos ritmos biológicos. Tal insuficiência deixa espaço para uma dimensão psíquica: a pulsão como representante do biológico, força constante, que designará um conflito permanente no psiquismo. A pulsão como força é uma exigência de constante trabalho, desde o interior do corpo, realizada sobre o psiquismo, para que seja possível a construção de um circuito pulsional de satisfação. Esse então é o corpo da psicanálise, um corpo da ordem simbólica, diferente de um corpo mapeado pela biologia.
O corpo do idoso é o lugar privilegiado de desilusão narcísica. Com a velhice vem a convivência com um corpo envelhecido, deteriorado,e também, a proximidade da morte.
O corpo sofre transformações ao longo da vida e há que se fazer um luto do corpo infantil para o adolescente e do corpo jovem para o idoso.
È importante permitir o luto do corpo infantil, da identidade infantil e da representação dos pais infantis. Porém, ao adolescente, apesar do luto, cabe um investimento futuro. À sua frente o adolescente tem a imagem do adulto valorizada, a promessa de ascensão a outras possibilidades. No idoso a situação é outra. Além de não se reconhecer num rosto coberto de rugas, num corpo decadente que a imagem do espelho lhe devolve, as esperanças vão ficando pra trás.
Nos dias de hoje, submersos num processo de globalização, procuramos garantir nossos lugares, agarrando um ideal estético e econômico de massa. O ideal é ser jovem, bonito, economicamente ativo e cheio de energia. Ou seja, a imagem corporal na velhice tem que ser resituada. Mas como? A resposta pode estar na elaboração do luto desse corpo jovem.
A questão é que o idoso também sofre várias perdas, limitações, preconceitos e muitas vezes é difícil processar esse luto sozinho. Será que podemos dizer que hoje em dia esse luto é maior do que antes por conta de uma sociedade cada vez mais aprisionada em um ideal de juventude como única fonte de inspiração do mundo?
Isso talvez não importe mas uma resposta pode vir da psicanálise como trabalho psíquico, abrindo a porta para uma conciliação com um corpo frágil e mortal do idoso, aonde a singularidade de seu desejo possa comparecer.

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