segunda-feira, 25 de agosto de 2008

MUTAÇÕES - A CONDIÇÃO HUMANA

Novo ciclo de conferências, com início em 1 de setembro, acontece no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São paulo e Brasília. Confira as informações.
O ciclo de conferências Mutações - a condição humana, de curadoria de Adauto Novaes, será realizado entre 1 de setembro e 17 de outubro no Rio de Janeiro e também em Belo Horizonte, São Paulo e Brasília.

A idéia deste novo ciclo ganhou forma durante a realização do seminário Mutações - novas configurações do mundo, em 2007, onde a questão ‘O que é humano?’ se impôs. O evento trará 19 conferências que partirão de dois eixos de reflexão: a mundialização e a revolução tecnocientífica e biotecnológica.


PROGRAMAÇÃO



AS QUATRO CONCEPÇÕES DO HOMEM l Francis Wolff
RJ - 1 set l BH - 2 set l SP - 3 set l BR - 10 set

A INVENÇÃO DO PÓS-HUMANO l Franklin Leopoldo e Silva
RJ - 2 set l BH - 3 set l SP - 4 set l BR - 11 set

O QUE MANTÉM UM HOMEM VIVO? l Renato Lessa
RJ - 3 set l BH - 4 set l SP - 5 set l BR - 29 set

A CONTINGÊNCIA DO NOVO l Newton Bignotto
RJ - 8 set l BH - 9 set l SP - 10 set l BR - 22 set

DO ANTI-HUMANISMO AO PÓS-HUMANISMO l Jean-Pierre Dupuy
RJ - 9 set l BH - 10 set l SP - 11 set l BR - 15 set

IDENTIDADES IRRECONHECÍVEIS l Oswaldo Giacoia Junior
RJ - 10 set l BH - 11 set l SP - 12 set l BR - 30 set

MARX E A CONDIÇÃO HUMANA l Francisco de Oliveira
RJ - 15 set l BH - 16 set l SP - 17 set l BR - 6 out

SOBRE A POTÊNCIA POLÍTICA DO INUMANO l Vladmir Safatle
RJ - 16 set l BH - 17 set l SP - 18 set l BR - 3 out

O NÃO-LUGAR DO HUMANO l João Camillo Penna
RJ - 17 set l BH - 18 set l SP - 19 set l BR - 1 out

HOMO CIVILIS (OU HOMO SAPIENS 2.0) l Luiz Alberto Oliveira
RJ - 22 set l BH - 23 set l SP - 24 set l BR - 2 out

O CONTROLE DE SI: EM DIREÇÃO A UM HOMEM NOVO? l Joelle Proust
RJ - 23 set l BH - 24 set l SP - 25 set

SOBRE AS TESES DA MORTE DO HOMEM l Antônio Cícero
RJ - 24 set l BH - 25 set l SP - 26 set

NÓS, AS CIVILIZAÇÕES, SABEMOS QUE SOMOS MORTAIS l Sérgio Paulo Rouanet
RJ - 30 set l BH - 1 out l SP - 2 out

AQUILO DE QUE O HOMEM É INSTRUMENTO - DESCARTÁVEL l Eugênio Bucci
RJ - 1 out l BH - 2 out l SP - 3 out

DELICADEZA l Maria Rita Kehl
RJ - 6 out l BH - 7 out l SP - 8 out

A SEXUALIDADE VAI DESAPARECER? l Marcela Iacub
RJ - 7 out l BH - 8 out l SP - 9 out

ONDULAÇÕES PARANÓIDES DE UMA ÉPOCA l Pascal Dibie
RJ - 8 out l BH - 9 out l P - 10 out

VIOLÊNCIA E SUBJETIVIDADE l Slavoj Zizek
RJ - 13 out l SP - 14 out

MUTAÇÕES l MD Magno
RJ - 15 out l SP - 17 out



Inscrições a partir de 18 de agosto.


INFORMAÇÕES:

Rio de Janeiro | ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS - TEATRO RAIMUNDO MAGALHÃES JÚNIOR
Av. presidente Wilson, 203 | Centro
Informações e inscrições:
ABL (21)3974-2559 das 12h às 18h | www.academia.org.br
Conferências segundas, terças e quartas às 19h

I CONGRESSO BRASILEIRO DE SAÚDE MENTAL

Em nome da ABRASME - Associação Brasileira de Saúde Mental, juntamente com o Departamento de Saúde Pública da UFSC e em parceria com uma rede de instituições, órgãos públicos e movimentos sociais, temos a honra de anunciar a realização do I CONGRESSO BRASILEIRO DE SAÚDE MENTAL - Perspectivas em Saúde Mental: Diversidade e Aproximações. Que será realizado em Florianópolis –SC, nos dias de 2 a 5 de Dezembro de 2008, sendo dia 2 o dia Pré-congresso.

Este evento atende a uma necessidade na perspectiva da consolidação de um sistema de saúde que tem como princípios a integralidade, a universalidade de acesso e a descentralização.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Édipo, não tão complexo

Lançamento

A Escola Letra Freudiana convida para o coquetel de lançamento da Revista nº39, Édipo, não tão complexo que será realizado no dia 12 de junho, quinta-feira, às 20:30h, na sede da Escola.

Jornada

A Escola Letra Freudiana, através do Núcleo de Investigação Hans, convida a todos para a Jornada Édipo, não tão complexo organizada a partir dos escritos lançados na nova publicação.

Partimos da posição freudiana que o complexo de Édipo é o complexo nuclear da neurose, formulação que enlaça o destino do recalque ao inconsciente. A crise edipiana obedece a um tempo preciso da constituição do sujeito que põe fim ao “tempo sexual precoce”.

Esta Jornada tem como objetivo abrir uma interlocução entre os analistas sobre esse fenômeno central do precoce período sexual infantil.

Data

13 de junho de 2008 às 9hs.

Local do Evento

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ)

Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea, RJ.

Prédio Data Center – Auditório Del Castilho.

Informações e Inscrições

Rua Barão de Jaguaripe, 231, Ipanema, RJ.

Tel: (21) 2522-3877

E-mail: escola@escolaletrafreudiana.com.br

quinta-feira, 15 de maio de 2008

SEPARAÇÕES


Sobre o livro "Me larga! Separar-se para crescer" de Marcel Rufo

comentário de Contardo Calligaris - Folha de São Paulo

"A leitura é, para qualquer um, uma ocasião imperdível para refletir um pouco sobre o conflito (que nunca pára de nos assolar) entre nossos sonhos de sossego e nossos anseios de independência -conflito especialmente complicado, aliás, porque ele se repete dentro de cada um dos campos que nele se enfrentam: o amparo da dependência é também o porto seguro que (mesmo remoto e fantasiado) nos dá a força de continuar navegando para o largo, e não há liberdade sem a nostalgia de um lar que nos prenderia.

Como escreve Rufo: "Prender-se, desprender-se, voltar, sair novamente, encontrar, abandonar... Toda a nossa vida segue esse movimento permanente". E relacionar-se significa encontrar um mágico equilíbrio nesse movimento: "Cada qual precisa do outro para se construir e se conquistar, para se tranqüilizar às vezes, e para compartilhar momentos, idéias e desejos. O outro é precioso na medida em que representa uma abertura para o mundo".Ou seja: a solução do conflito entre dependência e autonomia nunca é definitiva e é um paradoxo. Como é possível encontrar amarras que nos libertem?Em suma, o conflito entre nossa necessidade de amparo e apego e, do outro lado, nossa sede de separação e independência é central na constituição de nossa subjetividade e continua crucial durante a vida toda. Sugiro um exemplo.Em geral, atribuímos tanto os apaixonamentos quantos as separações de nossa vida amorosa ao outro, que se revela, segundo os casos, sublime, incompetente ou sacana. Ou então, às circunstâncias, facilitadoras ou infelizes. Mas talvez os percalços de nossa vida amorosa sejam decididos por uma luta que se trava dentro de nós e que pouco tem a ver com as qualidades e os defeitos do outro ou com as adversidades do mundo.Talvez a gente se apaixone e se separe sobretudo conforme o ritmo do antigo e inesgotável conflito interno entre nossas aspirações de navegador solitário (a imagem é de Rufo) e nossa nostalgia de uma fusão na qual, enfim, poderíamos descansar de vez. Prova disso?Primeiro, obviamente, pense nas separações, por assim dizer, "abstratas": aquelas que acontecem em razão de um surto irresistível de independência num dos dois ou em ambos e, inversamente, naquelas que são maneiras de manter o conforto de outro apego: "Gosto de você, mas me largue, porque você me leva para liberdade demais; prefiro ficar aqui no quentinho".

Logo, lendo o livro de Rufo, é fácil reencontrar as modalidades da ruptura amorosa na lista dos percalços das separações pelas quais a criança conquista sua autonomia: separar-se para não ser abandonado, separar-se para crescer e medir o alcance de nossa liberdade, separar-se para testar o outro, para verificar que ele não nos deixará por isso, e por aí vai.É como se os altos e baixos de nossa vida amorosa fossem, antes de mais nada, a expressão de um conflito entre liberdade e apego que está em nosso âmago e nunca se resolve.

À primeira vista, muitos acharão essa idéia incongruente com sua experiência. Mas, antes de descartá-la, façam o seguinte. Depois de uma separação, quando os "erros" e as "falhas" do outro se afastaram um pouco na memória e começam a parecer irrelevantes, pergunte-se, por exemplo: "Mas, afinal, por que nós nos separamos?" Na maioria dos casos, a gente não sabe responder."

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Nestes últimos dias assisti a alguns filmes no cinema e nenhum foi excelente. Ficou sempre no mais ou menos, o que me fez pensar que então cinema não precisa ser algo memorável, pode ser apenas um entretenimento. Mentira, isso eu já sabia, eu queria mesmo encontrar um filme que me surpreendesse.
MEU NOME NÃO É JOHNNY é realmente um filme bobo, mas eu gosto de ver e ouvir histórias, então ok. ESTAMOS BEM MESMO SEM VOCÊ e A CULPA É DO FIDEL têm lá seu charme, mas nada demais. O único que me chamou mais atenção até agora foi A VIDA DOS OUTROS, sem dúvida um bom filme, boa história, direção e atores. Algo nele me fez sair com vontade de chorar, mas não de tristeza. Algo que mostra a beleza do ser humano, nada a ver com bondade, mas de ser bonito pq único, bonito pq ambíguo.

Provavelmente preciso dar uma passada na locadora...

Dica de filme interessante, porém já todo contado e esmiuçado, vá lá, pegarei assim mesmo pois o dono da dica é exigente até as raízes sabe-se lá do que: é O INQUILINO (do Polanski).

Pelo menos com os livros não tenho me decepcionado. Terminei o ano lendo dois barra pesada pq tratam de temas tão comuns e tão assustadores: angústia, minha gente, a boa e velha angústia e nada mais nada menos do que a morte. São eles: A MORTE DE IVAN ILLITCH - do Tolstói e FACE A FACE - do Bergman. Muito bons. Agora estou mais light e leio os presentes de natal - APRENDENDO A VIVER - Clarice Lispector e EU SEI QUE VOU TE AMAR - Arnaldo Jabor.
Como diria Freud, quer ser psicanalista, leia literatura! Sigo o conselho, até pq tô cheia de ler tanta psicanálise. Sinto falta de ler poesia e relembrar a intensidade de outrora, mas isso já é um outro papo...

sábado, 5 de janeiro de 2008

MOSTRA MEMORIA DA LOUCURA

Fui ao Centro Cultural da Saude, Praça 15, e me deparei com um lugar mt legal que pouca gente conhece e que existe desde 2001.

Pra quem gosta do tema saúde mental ou quer saber mais sobre reforma psiquiátrica, vale a pena dar uma conferida. A mostra é bem organizada e criativa.

A mostra Memória da Loucura apresenta a história da Psiquiatria no Brasil, documenta as diversas formas de tratamento, as personalidades relevantes, as influências estrangeiras e retrata a assistência psiquiátrica, marcada por isolamentos e terapêuticas repressoras e desumanas.


Uma história que a sociedade hoje se empenha em reescrever, tornando realidade a Lei Antimanicomial n.º 10.216, de 6/4/2001, que dispõe sobre a humanização da assistência, a gradativa desativação dos manicômios e a implementação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) que, junto com os Serviços Residenciais Terapêuticos (Portaria GM n.º 106, de 11/2/2000), são parte integrante da Política de Saúde Mental do Ministério da Saúde, essenciais no processo de desinstitucionalização e reinserção social dos egressos dos hospitais psiquiátricos.



Muitos preconceitos ainda persistem e muitas ações ainda se fazem necessárias para que o País garanta os legítimos direitos civis e humanos às pessoas acometidas de transtorno mental. A proposta é contribuir para que gestores, profissionais e usuários, junto com a comunidade, efetivem os programas de saúde mental e conquistem uma nova realidade nesse campo.

Terça a sábado de 10 às 17hs.

Centro Cultural da Saúde

Praça Marechal Âncora, s/n. - térreo - Centro -Rj

2240-5568

http://www.ccs.saude.gov.br

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

FELIZ ANO NOVO!

Um Sonho

"Foi um sonho tão forte que acreditei nele por minutos como uma realidade. Sonhei que aquele dia era Ano Novo. E quando abri os olhos cheguei a dizer: Feliz Ano Novo!
Não entendo de sonhos. Mas este me parece um profundo desejo de mudança de vida. Não precisa ser feliz sequer. Basta ano novo. E é tão difícil mudar. Às vezes escorre sangue."
Clarice Lispector

É realmente ano novo. É realmente difícil mudar. Não há definição clara para a palavra felicidade, pois o que é isso tão divulgado e solicitado que acaba se perdendo e virando obrigação, imposição?
Gostaria que neste ano novo tenhamos mudanças e felicidade sim, esta definida lindamente por um paciente - certa tranquilidade interna. O resto vamos cavucando e rindo e chorando vamos vivendo. E que a angústia de estar vivo possa se transformar, nunca é totalmente, mas que abra novas possibilidades de sentir, de agir, de viver. O caminho, cada um segue o seu. Reconheço as limitações do homem e reconheço as limitações da psicanálise, mas continuo apostando nos dois. Esse é o meu caminho.
Feliz Ano Novo!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

NOITE DE NATAL - Ana Cristina Cesar

Estou bonita que e um desperdicio


Nao sinto nada


Nao sinto nada, mamae


Esqueci


Menti de dia


Antigamente eu sabia escrever


Hoje beijo os pacientes na entrada e na saida


com desvelo tecnico



Freud e eu brigamos muito


Irene no ceu desmente: deixou de


trepar aos 45 anos



Entretanto sou moca



Estreando um bico fino que anda feio,



pisa mais que deve



Me leva indesejavel pra perto das botas pretas



Pudera

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

IDIOSSINCRASIAS DO AMOR

EU: Tá tão escuro, quer que acenda a luz?
ELE: Não precisa, eu tô enxergando.
EU: Credo, eu gosto de tudo iluminado, de escuro basta o oculto do inconsciente...
ELE: Ah, mas então é por isso, é que eu não tenho mais inconsciente!

sábado, 15 de dezembro de 2007

"...o sujeito moderno tem que se haver, continuamente, com a questão da sua liberdade, que é um dos ideais mais caros à modernidade e que ao mesmo tempo, quando mal elaborado, torna-se um imperativo paralisante, ou então joga o sujeito na angústia de ter que responder por uma "autonomia" que, para o pensamento de Lacan, só pode ser delirante."


A Minima Diferenca - M. R. Kehl

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Lasar Segall

Artista expressionista ganha homenagem no Rio de Janeiro





Editorial

Depois de um hiato de 20 anos, o Rio de Janeiro recebe uma retrospectiva do artista russo naturalizado brasileiro Lasar Segall. Trata-se de uma homenagem aos 50 anos da morte do expressionista. O público confere 93 obras, entre pinturas, desenhos, gravuras e esculturas. Entre elas, 40 pertencem ao Museu Lasar Segall de São Paulo.

A retrospectiva traz peças inéditas para os cariocas. A mais aguardada é Retrato de Lucy (1936), adquirido pelo governo francês dois anos depois e que integra o acervo do Centre Georges Pompidou, em Paris. Esta é a primeira vez que o quadro sai da França. Como forma didática, além das tradicionais visitas guiadas, é disponibilizado para o público escolar um terminal de consulta multimídia e interativa.




Informações

Local:Pinakotheke Cultural
Preço(s):Grátis.
Data(s):Até 21 de dezembro.
Horário(s):Segunda a sexta, 10h às 19h; sábados, 11h às 18h.



RESPOSTA AO AMIGO OCULTO

Estou mesmo intrigada. O que seria a "grande travessia"? Lacan até fala do atravessamento do fantasma, mas não creio que é isso que vc. quer dizer. O enigma do desejo é algo bem maior que meu desejo disso ou daquilo, de ir ao cinema ou tocar percussão. é o que me funda enquanto sujeito e está no cerne da minha fantasia. O que eu busco é reinventar algo dessa fantasia pra não cair tanto na esparrela segura e sintomática da repetição. Vc. fala do meu blablabla, mas e o seu? Vamos deixar de tanta verborragia e trabalhar! Meu Deus, aonde foi parar a associação livre? Eu sei, eu sei, nos escondemos muitas vezes atrás da "garantia" que a escrita dá.(ver o poema abaixo de Affonso Romano de Sant'anna). Então me diga, o que te aflige tanto?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

VOLTA

Enfim de volta! Após um longo e tenebroso inverno, dias ociosos ou focados na inutilidade acadêmica. Não que a academia não tenha sua utilidade, seu valor, longe de mim negá-los. Mas para mim, que quero fazer psicanálise, ela não interessa muito. A teoria é importante, claro, não é disso que se trata. A academia e seus intelectualismos, ranso burguês que me incomoda. No final das contas o que vale são as aparências? O nosso maravilhoso e controverso "mundo pós-moderno" vai nos dizer o que fazer? e esse fazer é um verdadeiro faz de conta para um puta de um enquadramento que vai nos tranquilizar(?) para enfim respirarmos aliviados. O animal racional vivendo em paz em sociedade. Mas que animal racional é esse? O homem é um "animal pulsional"!!! Eu continuo fazendo a escolha de não me enquadrar tanto, porque algum enquadramento todo mundo tem, e essa escolha é não sem conflitos, claro, mas tento andar pelo mundo dando conta do meu desejo, o que é MUITO difícil!
Para vocês, meus 7 leitores, não pensem que estou sendo pessimista, estou caminhando tendo gratas surpresas.
Beijos a todos!

domingo, 2 de setembro de 2007

SANTIAGO

Fui assistir ao filme Santiago, de Joao Moreira Salles. Pensei comigo que deveria ser um documentario insosso, mas como gosto dos trabalhos do diretor, la fui eu.
Grata surpresa. Ha muito um filme nao me emocionava tanto. Como documentario e interessantissimo, muitos ja disseram que esta obra revoluciona o cinema documentarista. Mas para mim, o que mais chamou atencao foi o proprio personagem, realidade e imaginacao.

Lembro-me de Max Weber e seu desencantamento do mundo: o real e mecanico, repetitivo e o reencantamento se da pela imaginacao, principalmente a imaginacao na arte.

Pois para Santiago essa ideia funciona. Depois de vermos suas divagacoes e lembrancas, descobrimos nele uma pessoa culta, viajada e cheia de historias. Mistura com extrema elegancia a realidade e a imaginacao, a memoria e o sonho. O proprio diretor, la pelas tantas no filme nos diz que talvez por essa brecha do universo artistico, fantastico, Santiago encontrava sua forca para viver uma vida da qual nenhum de nos sabe o sentido.

Li uma cronica de Contardo Calligaris sobre o filme da qual extraio uma parte:

"... Agora, Santiago tem uma consciência aguda de que a vida é passageira e o céu está vazio (citação de Bergman por Santiago). E não é uma consciência produzida pela idade avançada. Walter Salles me contou uma anedota bem anterior ao filme: uma manhã, Walter Moreira Salles, seu pai (e pai de João, claro) abriu as cortinas de seu apartamento de Copacabana junto com Santiago. Era um primeiro de maio ensolarado. Walter Moreira Salles comentou: "Que dia lindo". E Santiago, imediatamente, em portunhol, olhando para a praia já cheia: "Em cem años, estarão todos muertos".
Mas Santiago não é cínico. E seu remédio contra a morte não é apenas sua prodigiosa memória. No filme, Santiago toca as castanholas, canta, dança com as mãos e, sobretudo, está sempre preocupado com a beleza. Inclusive com a beleza da morte, "la gran partita", o "bel morir" que pode dignificar a vida inteira. Uma especialidade de Santiago consistia em preparar arranjos de flores para as festas. Ele dava, aos diferentes arranjos, nomes musicais, cantata, scherzos etc. Quando os terminava, ficava a fim de lhes pedir (aos arranjos) que cantassem, assim como Michelangelo perguntou "Por que não falas?" à sua estátua do Moisés (Santiago corrige a lenda, preferindo o Davi). As flores dos arranjos logo murcharão, mas o importante é que elas desabrochem na hora efêmera da festa, mostrando o esplendor de cada flor e a harmonia do arranjo. Como um arranjo, uma vida não se justifica por sua duração, nem pela lembrança, nem pelo aplauso dos outros, ela se justifica por sua harmonia intrínseca. Se for assim, o Santiago que conhecemos pelo filme de João Moreira Salles justificou sua vida."

Vale a pena!

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Acontece na cidade do RJ o Ciclo de Conferências MUTAÇÕES - NOVAS CONFIGURAÇÕES DO MUNDO. Todas as segundas, terças e quartas, às 18h30. Maison de France. Mais informações no site:
www.cultura.gov.br/culturaepensamento

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Responsabilidade - SARTRE E PSICANÁLISE

De acordo com o existencialista Jean-Paul Sartre, o homem não é mais do que aquilo que ele se faz. Ele estabelece a noção de liberdade total e absoluta do homem. "Eu sou as minhas escolhas", diz Sartre. Entra aí também o conceito de responsabilidade (res-pondeo: comprometer-me por mim mesmo). Você só existe em relação com o mundo, não há um "mundo interior" em que você exista.



As principais condições do homem existencialista são a angústia e o desamparo, escolha e responsabilidade. É importante pensar na interseção de alguns desses conceitos com a psicanálise. Nela também se trabalha com essas condições, a diferença que faz toda a diferença é o conceito de inconsciente, de mundo psíquico.



Portanto, Sartre rompe com a psicanálise porque sustenta que todos os aspectos de nossa vida mental são escolhidos conscientemente e de nossa inteira responsabilidade, o que é incompatível com o determinismo psíquico de Freud.



Para a psicanalise a responsabilidade excede as escolhas, ela diz respeito ao sintoma do sujeito. Como nos diz Lacan: "Cada um e responsavel a partir de sua posicao de sujeito." Responsabilidade, Desejo e Sintoma estao associados. Mais adiante pretendo desenvolver mais este tema. Ate breve!

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

ETICA

"A ética da psicanálise está a mil léguas da ética do soberano bem e do amor ao próximo.

Uma psicanálise é o encontro de dois desconhecidos unidos pela transferência. E é por isso que ela oferece a oportunidade de se descobrir o estranho em si mesmo."



Do livro "Política e Psicanálise", de Caterina Koltai

CERTEZA - de Affonso Romano de Sant'anna

"A certeza, sei, é desumana,

é carapaça, couraça, verniz, mentira, máscara

e incapacidade

- de viver o drama.

A certeza, por certo, causa dano

mas é aspiração confessa

de quem, nietzschiano, se cansa

de ser humano,

- demasiadamente humano."

domingo, 5 de agosto de 2007

CRIATIVIDADE: UMA ABERTURA PARA SINGULARIDADES

A criatividade é um dos potenciais mais ricos que o ser humano pode desenvolver. Porém, o seu estudo foi durante muito tempo restrito apenas a resolução de problemas. Hoje se sabe que a criação está intrínseca à vida, o que coloca o homem numa constante construção de singularidades. A criatividade é algo que nos forma. Acontece que o homem ainda está muito voltado para a estabilidade, para a segurança, negando a criação como algo inerente a ele. Essa negação se deve a uma política de manutenção das formas estabelecidas, a uma rede social que valoriza o material, o capital. De acordo com esta atuação da sociedade contemporânea está cada vez mais difícil estabelecer singularidades e diferenças no homem.
Pode-se pensar na arte como instrumento dessa difícil construção da vida. Ao mesmo tempo em que estamos presos a um sistema próximo ao equilíbrio, a invenção pode surgir através da arte. A vida é discutida em todos os seus detalhes pela arte, inventada e reinventada em cada forma, imagem, palavra, e com isso, nosso olhar torna-se reflexivo. A arte então produz desequilíbrios, dúvidas e interrogações, surpreendendo a repetição de regras e leis.
Assim como a arte, a clínica numa perspectiva renovada também seria uma invenção de valores originais, criação de uma nova realidade. A análise coloca-se como fundamental para ampliar a fluidez e a liberdade de criação. Ambas são tentativas de rompimento de uma estrutura já conhecida para a construção de uma vida mais singular e genuína.

MEDICALIZAÇÃO PARA QUEM?

Nos dias de hoje uma coisa é certa: ninguem quer sentir dor. Numa sociedade marcada pelo imediatismo, pelo consumismo, cada vez mais as pessoas se voltam para fora e tentam descobrir como se livrar do sofrimento, da angustia, de todo tipo de dor. Para fora? Para todo o tipo de droga moderna? Pois é, a medicalização exagerada acontece quando impõe-se a obrigação de ser feliz ou quando precisa-se urgentemente sair do buraco.
Os psicofarmacos estão mais populares e de mais fácil acesso. Em recente pesquisa da Medco Health Solutions, constatou-se que a prescrição de antipsicoticos em crianças nos EUA teve um salto de 73% de 2001 a 2005. Pesquisas sobre os danos causados nessas crianças ainda não foram concluídas. É claro que há muito em jogo dentro da industria farmacêutica, mas também podemos pensar em como e tranqüilizador para o medico, e, claro, para os pais o diagnostico por ex. do transtorno do déficit de atenção. É mais fácil e rápido perceber um problema físico, neurológico, e “resolvê-lo” entupindo uma criança de remédios, sem sequer ouvi-la e saber suas necessidades.
Seria burrice ir contra a farmacologia, longe disso. Muitas vezes é extremamente necessária a utilização do fármaco, ate para que a pessoa saia da paralisia em que se encontra e possa buscar outras maneiras de lidar com sua dor. Porem, como vimos acima seu uso pode ser perigoso pelos seus efeitos colaterais e alem disso, somente sair do buraco e como mergulhar no vazio. A dor insuportável pode ate diminuir, mas ai pode entrar um vazio existencial onde nenhum remédio atua, pois o ser humano não pode ser reduzido a hormônios e neurônios. Há uma singularidade que nos atravessa e com ela a abertura para novas possibilidades de tratar esse sofrimento. Possibilidades como a analise, que requer trabalho, escuta, elaboração, tempo. Que tal começarmos nos dando este tempo para olharmos para dentro de nos? As vezes é preciso ajuda, o primeiro passo é permitir e aceitar que o sofrimento faz parte de nossa vida.

sábado, 4 de agosto de 2007

SENHAS

Eu não condeno mentiras

Eu não condeno vaidades



Eu gosto dos que têm fome

dos que morrem de vontade

dos que secam de desejo

dos que ardem



Adriana Calcanhoto

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

ANTONIONI E BERGMAN

Nesta semana perdemos dois grandes cineastas mundiais: o italiano Michelangelo Antonioni e o sueco Ingmar Bergman.
Entre os dois prevalecia um cinema humano, aonde o que se destacava era o sujeito humano, o sujeito dividido. Seus personagens eram frageis, ambiguos, amplos em suas alegrias, frustracoes e angustias.
O amor, quando mostrado, nao era esse a que estamos acostumados, o amor romantico que tanto foi incensado pelo cinema americano (e tantos outros). Essa ideia de amor romantico, idealizado, nao e nova, nao surgiu com o cinema, mas certamente foi fortalecida por ele(tambem). Nos filmes de Antonioni e Bergman, na vida nao existem certezas, apenas a certeza da imperfeicao, dos possiveis e impossiveis do amor.
Outros temas foram trabalhados por eles como a morte, as relacoes familiares, historia, reconhecimento, identificacoes. Alguns de seus filmes imperdiveis: Sonata de Outono, Gritos e Sussurros, Da Vida das Marionetes, O Setimo Selo, de Ingmar Bergman e,
BlowUp, A Noite, de Antonioni.

150 ANOS DE FREUD

Ano passado comemorou-se os 150 anos do nascimento do pai da psicanalise, Sigmund Freud.
Suas noções sobre o complexo de Édipo, as defesas, as pulsões, a sexualidade infantil e, principalmente, a descoberta do inconsciente revolucionaram toda uma epoca e permanecem atuais ate hoje. Mudam os paradigmas, mudam os sintomas e surgem novas patologias numa sociedade hoje globalizada, fragmentada, veloz. Porém, a psicanálise lida com uma condição estrutural, que é o fato de que somos sujeitos do inconsciente, somos seres de linguagem e essa estrutura não se altera com o passar dos anos.
Como nos diz Jorge Forbes: "...viver para ele (Freud) é se responsabilizar pelas escolhas, as quais nenhum livro de auto-ajuda, reza ou pesquisa cientifica pode poupar."

CURA?

"A cura em psicanalise consiste antes na possibilidade de o sujeito identificar-se com seu sintoma, adquirindo certa mobilidade criativa em relacao a ele. O sintoma nao deixa de representar, para o sujeito, algo da particularidade do desejo que lhe escapa, alguma outra coisa alem da banalidade da repeticao sintomatica."

Escrito por Maria Rita Kehl - livro "Sobre Etica e Psicanalise"
"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossivel cria em nos."
Clarice Lispector

EM COMPANHIA DE FREUD

Na revista "New Yorker" de 27 de fevereiro de 2006, foi publicada uma excelente reportagem de David Remnick sobre a chegada ao poder do Hamas, na Palestina.Remnick entrevistou o xeque Nayef Rajoub, que, nas recentes eleições, foi o recordista de votos da Cisjordânia. Rajoub, depois de lamentar que o mundo ocidental "da moda e da mídia" seja "controlado por judeus", declarou: "Freud, um judeu, é aquele que acabou com a moral, e Marx acabou com as ideologias divinas".Não sei se Freud acabou com a moral (por razões que explicarei a seguir, penso o contrário) e não parece que Marx tenha acabado com as ideologias divinas. Seja como for, Rajoub tem razão de agrupar Freud e Marx numa mesma execração do Ocidente (que é, segundo ele, devasso e perdido).Para justificar essa reunião de Marx e Freud, não é preciso recorrer às tentativas (típicas dos anos 60 e 70) de juntá-los num único projeto revolucionário que transformaria de vez a subjetividade (a vida cotidiana) e a organização social e econômica de nosso mundo. Ou melhor, para justificar a antipatia do xeque por Freud e Marx, não é preciso ressuscitar Herbert Marcuse.Marx e Freud são os pensadores modernos que transformaram mais radicalmente nossa maneira imediata, espontânea, de enxergar a realidade. Pouco importa que sejamos freudianos ou marxistas, pouco importa que a gente tenha lido o que Marx e Freud escreveram: depois deles, pensamos diferente. Como?Espontaneamente, a partir de Marx, enxergamos nossa realidade social, econômica e política como uma arena de conflitos e, a partir de Freud, pensamos a subjetividade como um conflito interno permanente.Ora, o xeque Rajoub não gosta de conflitos, a não ser que sejam conflitos bem externos -com o povo judeu, por exemplo, ou com o Ocidente. Conflitos em casa ou na cabeça, nem falar. Rajoub tem razão: a influência de Marx sobre seus eleitores seria péssima, a de Freud pior ainda.Mas voltemos à idéia do xeque, segundo a qual, entre os ocidentais, Freud teria acabado com a moral. Talvez ele esteja estigmatizando, via Freud, a liberdade de nossos costumes sexuais. Mas é possível que sua crítica seja mais "pertinente": de fato, Freud, com suas histórias de inconsciente, de desejos reprimidos, de conflitos psíquicos, tornou o juízo moral muito complicado.Na distinção entre o bem e o mal, as coisas se atrapalham quando (na aurora da modernidade ocidental) a gente começa a confiar no foro íntimo de cada um e pára de acreditar cegamente nas regras transmitidas pela tradição, religiosa ou não. Elas só pioram quando, com a experiência freudiana, no dito foro íntimo, enfrentam-se pensamentos e afetos contraditórios e de difícil acesso pelo próprio sujeito.Segundo o xeque Nayef Rajoub, este é o fim da moral: as pessoas, em vez de obedecer ao que foi escrito ou dito pelos anciões, pensam com sua própria cabeça e, além disso, seus pensamentos são conflituosos e confusos. Mas esse "fim da moral" é o começo do que nós chamamos comportamento moral.Para o xeque, ser moral significa seguir as regras. Para nós, ser moral significa se perguntar o que é moral e o que não é. A resposta pode ser difícil ou impossível; podemos não "saber" nunca se o aborto ou o suicídio assistido são morais: o que importa é que a gente não pare de se interrogar sobre a moralidade desses atos.Do ponto de vista ocidental, Rajoub é profundamente imoral, porque não se questiona. E Freud é um pensador moral, por ele ter complicado singularmente nosso questionamento.O xeque Nayef Rajoub não é o único que não gosta de Freud. Em 2004, um entrevistador perguntou a George W. Bush se sua decisão de invadir o Iraque não podia ser inspirada pela vontade de continuar a obra de seu pai ou de mostrar que ele saberia levá-la até o fim. George W. Bush não gostou dessa sugestão "freudiana" e respondeu que ele não iria "se deitar no divã". Não sei se a decisão de invadir o Iraque foi ou não produzida por algum sintoma da família Bush, mas tendo a pensar que, na hora de decidir sobre a vida e a morte de milhares de pessoas, deitar-se num divã seja uma boa idéia. Não porque isso simplificaria a decisão, mas, justamente, porque a complicaria.No sábado retrasado, Freud teria feito 150 anos. A data está sendo celebrada -com aplausos e algumas vaias.Mas, seja qual for nossa opinião sobre a eficácia da psicanálise ou o valor de sua teoria, o fato é que Freud mudou de maneira irreversível nossa experiência de nós mesmos.Em particular, graças a ele, o foro íntimo, onde fazemos nossas escolhas, tornou-se para sempre um lugar mais complexo e atormentado. Com isso, mesmo se a psicanálise for relegada um dia no museu das terapias ultrapassadas, Freud continuará sendo um luminar da consciência moral ocidental.Um ditado diz que os inimigos de nossos inimigos são nossos amigos. Ele não é sempre verdadeiro, mas, no caso, nesse começo de século, fico satisfeito de estar em companhia de Freud.

Escrito por Contardo Calligaris em 20/05/2006.

O CORPO NA VELHICE

O corpo para a psicanálise é um corpo simbólico, permeado de cortes, recortes, buracos, recortado pela fantasia. Esse corpo é atravessado pela linguagem, o que nos torna possível a construção de redes de significados. Nosso corpo biológico é capturado desde o início numa rede de imagens e palavras, apresentadas primeiro pela mãe, depois pelos familiares e pelo social. É isso que vai moldando o desenvolvimento do corpo biológico, transformando-nos em seres humanos, com modo de ser singular.
O ser humano, diferentemente dos animais, é um deficiente instintivo. A localização do sujeito está sempre em volta do Outro, reduzindo o campo instintivo aos ritmos biológicos. Tal insuficiência deixa espaço para uma dimensão psíquica: a pulsão como representante do biológico, força constante, que designará um conflito permanente no psiquismo. A pulsão como força é uma exigência de constante trabalho, desde o interior do corpo, realizada sobre o psiquismo, para que seja possível a construção de um circuito pulsional de satisfação. Esse então é o corpo da psicanálise, um corpo da ordem simbólica, diferente de um corpo mapeado pela biologia.
O corpo do idoso é o lugar privilegiado de desilusão narcísica. Com a velhice vem a convivência com um corpo envelhecido, deteriorado,e também, a proximidade da morte.
O corpo sofre transformações ao longo da vida e há que se fazer um luto do corpo infantil para o adolescente e do corpo jovem para o idoso.
È importante permitir o luto do corpo infantil, da identidade infantil e da representação dos pais infantis. Porém, ao adolescente, apesar do luto, cabe um investimento futuro. À sua frente o adolescente tem a imagem do adulto valorizada, a promessa de ascensão a outras possibilidades. No idoso a situação é outra. Além de não se reconhecer num rosto coberto de rugas, num corpo decadente que a imagem do espelho lhe devolve, as esperanças vão ficando pra trás.
Nos dias de hoje, submersos num processo de globalização, procuramos garantir nossos lugares, agarrando um ideal estético e econômico de massa. O ideal é ser jovem, bonito, economicamente ativo e cheio de energia. Ou seja, a imagem corporal na velhice tem que ser resituada. Mas como? A resposta pode estar na elaboração do luto desse corpo jovem.
A questão é que o idoso também sofre várias perdas, limitações, preconceitos e muitas vezes é difícil processar esse luto sozinho. Será que podemos dizer que hoje em dia esse luto é maior do que antes por conta de uma sociedade cada vez mais aprisionada em um ideal de juventude como única fonte de inspiração do mundo?
Isso talvez não importe mas uma resposta pode vir da psicanálise como trabalho psíquico, abrindo a porta para uma conciliação com um corpo frágil e mortal do idoso, aonde a singularidade de seu desejo possa comparecer.

SOBRE O TEMPO

“Tudo pode acontecer; tudo é possível e provável. Tempo e espaço não existem. Sobre uma insignificante base da realidade, a imaginação gira e tece novos modelos.”
August Strindberg

Comecei a pensar sobre o tempo e em como ele está passando cada vez mais rápido. É claro que numa sociedade de consumo como a nossa, imagens, símbolos, tecnologias vão e vêm sem apresentações nem despedidas. Temos pressa. Mas podemos relativizar o tempo? O que é o tempo?
Para a filosofia o tempo existe como uma dualidade entre permanência e mudança. Na permanência, o tempo é o da ciência, o da soma dos instantes. Na mudança, o tempo aparece como um fluir contínuo, uma unidade. Em Bergson vemos que o presente não é só o momento que se segue ao passado e que antecede ao futuro. O presente nos coloca em contato com o movimento das transformações das formas constituídas. A atualidade não revela um domínio estável e formas instituídas, nem a resultante de uma sucessão linear de eventos, mas um campo instável, do qual as transformações fazem parte. (Rolnik, Sueli)
Para a psicanálise, o inconsciente é atemporal. No existencialismo, o tempo do homem não está no passado, presente ou futuro. O sentido do homem está na sua própria historicidade.
Pois é, e o idoso, como ele vê essa questão do tempo? Geralmente, para o idoso o tempo é uma questão difícil que oscila entre um passado constantemente sendo revivido e um futuro sem perspectivas. O tempo não pára, já dizia Cazuza. Ele está aí, ele passa e nós também, isso é inegável. Mas, voltando ao início, quando digo relativizar o tempo, me refiro não a um tempo cronológico, marcado, mas ao tempo da experiência vivida, o tempo que não se esvai pois não é contado e sim vivenciado com projetos, sentidos, subjetivações.
Esse tempo não existe em números e sim como tempo da experiência; então, sim, podemos dizer que ele é relativo por ser único e imprevisível.